domingo, 18 de março de 2012

Pequena resenha sobre o poeta agricultor


* * *
Amauri Adolfo da Silva, ou apenas Amauri, poderia ser o conterrâneo mais comum que temos aqui na serra. Mas é seu ofício silencioso e sensível que o faz ser anonimamente um sujeito especial: Amauri Adolfo é poeta.

Embora maneje bem as palavras, a atividade da qual sustenta sua gente é a mesma que também sustenta todos os povos do mundo – e, se dependesse dele, mataria toda a fome que existe no planeta. É que Amauri Adolfo é agrilcultor. Profissão da qual se apresenta com orgulho e faz questão de completar dizendo “agricultor agroecológico”.

Ele e sua família, assim como seus antecedentes, trabalham com a terra numa espécie de interação com a natureza, numa dinâmica de respeito mútuo no ato de plantar e de colher. É desta forma de pensar as coisas que Amauri cultiva sua obra literária, na mesma sintonia em que lavra a terra na labuta no campo.

“Redemoinho” é seu primogênito livro. Publicado em 2005, a coletânea de poemas trouxe à tona o poeta estreante, mas já compositor de versos tão maduros quanto pitangas no pomar do seu quintal. Nele, dialogava uma poesia propositalmente simples, sugerindo que para as coisas simples da vida não carece falar complicado. Porque sua temática – e desde então sua marca – trata justamente das experiências da vida interiorana, do olhar pacato de quem assiste o mundo debruçado na janela, do barulho da água escorrendo na bica, do cheiro de café misturado à brasa do fogão a lenha, da tarde em que borboletas salpicam o pasto e gaviões agitam o horizonte amarelo. Qual Manoel de Barros, em “Redemoinho” Amauri reinventava o mundo a partir daquilo que lhe é mais essencial: a natureza.

Já seu segundo livro, “O trem”, revelou uma outra fase do agricultor de palavras – ainda poeta, mas não dos versos. Agora sua poesia era dedilhada em linhas retas, como se a mão de quem as escreveu à noite debulhava pela manhã o milho pra fazer fubá. Escreveu um romance regionalista, pelo qual narrava uma viagem lúdica de trem feita pelas personagens angelicais que criou (ou reproduziu). Neste livro, Amauri trabalhou a escrita de forma técnica e prosaica, mas sem perder de vista suas inspirações fundamentais. Na viagem que imaginou ser possível, descrevia com veracidade as paisagens que corriam enquanto o trem seguia seus trilhos ao sul. E ao longo da história, pincelou os cenários reais de Espera Feliz e da encosta da Serra do Caparaó. Nossos morros, rios, árvores e nossa gente tomaram forma na sua escrita, levando o leitor a sentir a brisa que venta das páginas enquanto são lidas. Nesta obra, o autor proseou um belo causo fazendo juz ao típico mineiro que é.

Agora, e desta vez retornando ao verso, Amauri lança seu terceiro livro, batizado tão bonitamente de “Pedaços de Poesia”. Neste volume, o poeta reúne suas pequenas anotações numa teia de palavras e metáforas como se costurasse mesmo uma colcha de retalhos. E mais uma vez surpreende apresentando um novo jeito de escrever. Definindo sua fórmula própria, que tem como base nunca se repetir, Amauri compôs poemas utilizando uma linguagem sofisticada e refinou, no mesmo pilão, um pouco da poesia marginal e panfletária, assim como da poesia concreta dos anos cinquenta e a do modernismo dos anos vinte do século passado. Trata tanto da sutileza que existe no erotismo quanto da frieza das desiguldades sociais; lida sobre os dilemas humanos com humor e ironia e explora as possibilidades de sentido que a palavra permite alcançar. Mas tudo a serviço do verso, juntando cacos do quotidiano para reconstruir tão sensivelmente a vida com seus pedaços de poesia.

Por isso, o poeta agrilcultor parece ter deixado a roça por um tempo e voltou com um jeito inédito de olhar as coisas – e de falar sobre elas. Mas as coisas que vê ainda são as mesmas, e as descreve nas estradinhas de terra por onde suas palavras sempre nos faz caminhar, poeticamente entre os vales, riachos e os passarinhos do seu universo “interior”.

sábado, 3 de março de 2012

A trajetória

                                                                                                                                para Thiago PQD

Todos no bar ouvimos o tiro pairando seu estampido sobre as mesas e garrafas. Mas antes mesmo que o ruído seco ferisse nossos tímpanos, a bala já havia me vazado o corpo, na brutal leveza que tem uma arma espelindo chumbo a queima-roupas.

A trajetória do projétil iniciou cruzando os 2,5 centímetros que separavam o bico do revólver e eu. Depois, colidiu no atrito ardido com o meu peito perfurando primeiro minha camiseta de poliester branca e, em seguida, os frágeis poros da minha pele jovem. Com força e velocidade desproporcionais ao seu tamanho, a bala ultrapassou facilmente os tecidos do meu tórax, vencendo uma a uma as camadas de epiderme, gordura, músculos e outras fibras. Assim, logo tocou com violência a placa óssea do meu peito e a atravessou como se estilhaçasse uma fina tábua de argila. Com a precisão geométrica que geralmente têm os graves incidentes, perfurou um círculo perfeito no meio do esqueleto e seguiu caminho meu corpo adentro. Rompeu micro-vazos e pequenas artérias centrais, cortou películas e membranas que cobrem meus órgãos vitais e alvejou os brônquios do meu pulmão direito – mas o coração, que também estava na rota, (por todos os deuses possíveis ao meu lado) contraiu-se no exato instante em que a bala procurava minha alma.

Enquanto o projétil me percorria o tronco, sentia como se percorresse minha história inteira. Porque trouxe no mesmo tempo em que dura um relâmpago todas as lembranças do meu passado e futuro: o sorriso eterno da minha mãe, o abraço longo do meu pai que não vi, a voz de amizade da minha irmã mais velha, os olhos negros da minha sobrinha, o beijo loiro da minha namorada, as nuvens do céu que um dia pisei e todas as pessoas que ainda não amei... Perplexo, buscava em vão nos olhos do atirador o motivo que talvez nem ele pudesse compreender.

A trajetória que a morte me encontrava durou exatamente 0,00000032 segundos entre o explodir da pólvora e o último ponto em que a bala, próximo a omoplata e a coluna vertebral, alojou-se.

Mas ainda assim fui mais rápido. Fui mais forte. Eu não queria partir daquele jeito. E, só por isso, sobrevivi ao tiro, prevaleci à morte. Na trajetória que cabe aos verdadeiros homens de bem...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Som da noite

A varanda da noite se acende.
O sentar.
O isqueiro.
O flanar.

Samambaias rodeiam pomares.
Gatos, moscas, cactos.
A rua conduz os faróis.
A vida se concentra.
Tudo é som, é palavra, é noite.
Som de sentimento.
Som das coisas todas em movimento.
Som das horas tangendo no relento.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre o infinito

  existe
          no lapso
          do acaso de qualquer
                                instante
o momento
          exato
em que a pureza da alma
            (antes
                        de se eternizar
             em ato
pelo decorrer do tempo)
significa o mais breve
            intervalo
a que se pode chegar ao infinito,
            e seu rebento.

* * *
(Pico da Bandeira - Espera Feliz-MG/ES)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

...

Cachoeiras
   
Desce a encosta
Sobre as costas e costelas
Das pedras e pedreiras
Limadas a milênios
Pelo rio antigo
Fiapo rolador
De tempo

O rio que cria o limo
A lama e o lodo sobre as pedras
Alimenta algas, girinos e cambervas
E a pesca de cascudo
Do matuto sonhador

Correnteza fria arrasta folhas
E sementes
Remansos quentes refletindo a luz
Do dia
Canção molhada entoada
Nas ribeiras e cascatas

Cachoeiras

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(Cachoeira Vale a Pena - São Domingos - Espera Feliz/MG)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Gerson


Desde que Gerson chegou à cidade, sua figura e personalidade logo tornaram-no conhecido. Porém, apesar de hoje popular, nem todas as pessoas o conhecem pessoalmente – ou não fazem ideia de quem seja. Mas a parte com quem convive o preza como amigo e camarada.

É porque Gerson está em todas: participa do futebol de salão com os rapazes (o “Canhotinha de Ouro” da seleção de 70?), diverte as moças que passeiam no Calçadão, frequenta conversas de bar, festas de rua, churrasquinhos de sábado à tarde, choppadas eletrônicas na zona rural e noitadas com cerveja e baralho na mesa da cozinha de casa. Gerson, para esta parcela que o estima, é tido como um cara solícito e, portanto, sempre solicitado – “Porque Gerson é um cara legal”, é o que diriam.

Assim, até nas manhãs de domingo, sobre as pedras da cachoeira, Gerson com sua presença quase zen-budista sugere meditações sobre o barulho das águas do rio e a composição geológica da qual se formaram as rochas. Nas noites claras do céu de verão, Gerson também acompanha risos entre violões e vinho nos luais do Morro da Canoa.

Espirituoso e carismático, Gerson é o Johnny Cash da moçada.

Embora muitos já tenham ouvido falar, há quem julgue que o Gerson não passa de uma persona inventada. Uma entidade que além do nome e das histórias que leva não possui forma, rosto ou imagem. Mas no fundo não é nada disso. Gerson só prefere ser discreto como um famoso anônimo. Porque apesar de ser parceiro pra toda hora, por algum motivo ele se sente um forasteiro de si mesmo, um anti-heroi sem lenço nem documento – “Dom Quixote invisível nas madrugadas de Espera Feliz”, diriam seus amigos.

O certo é que Gerson está longe de um exemplo que possa ser copiado; mas também não é nenhum criminoso assaltante de velhinhas. Por isso, muitos falam com ele, porque além de aventureiro e comédia, Gerson é também um cara da paz.
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Aviso: Qualquer semelhança entre a crônica e a realidade não passa de uma ilusão de óptica. “Gerson” é meramente uma alegoria literária (e barata).
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(Vista do Morro da Canoa - Serra do Caparaó ao fundo)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A cordilheira

(Foto: Jean Carllo)

O sol que já trespassa a janela projeta no contorno deitado do seu corpo sombras do relevo montanhoso que insinuam suas curvas. Aos pés da cama, vislumbro sua paisagem mórfica que faz lembrar uma serra, desde as colinas frágeis dos seus tornozelos até os picos mais íntimos despontando à altura do seu busto.

Na manhã revelando as encostas do seu dorso, sigo entre lençóis, plumas e alfazema em direção ao horizonte definido nos detalhes da sua beleza – aventureiro, desenho mentalmente um mapa de rota ao observar a geografia descoberta pela sua nudez.

Então, inicio jornada subindo paredões de seda que (deitada) formam a planta dos seus pés. Ao cravar de delicados beijos, alcanço feito alpinista a altitude dos seus primeiros flancos, escalando cada falange dos seus dedos sobre os quais admiro a cordilheira feminina de suas planícies aveludadas. Respiro fundo e continuo, migrando carinhos em cada centímetro dessa expedição corporal.

Nas vertentes das suas pernas, lisas como a face rochosa de um penhasco, escorrego o rosto e desequilibro-me. Mas seguro firme (e docemente) no platô lapidado que a natureza fez de seus joelhos. Mais uma vez respiro, e sigo acariciando passos com as mãos nas lombadas sensuais de que formam suas coxas até o quadril – em sonhos de montanha adormecida, deve sentir vertigem quando caminho cílios na pradaria sensível de suas virilhas

Ao longo, posso avistar o planalto acinturado que compõem seu colo e barriga. Enquanto mais próximo, margeio o pequeno abismo do seu umbigo tateando o fundo com o eco de um estalar de beijo (em resposta, sinto delicados terremotos junto ao arrepiar de suas extremidades).

Do ângulo onde estou agora, posso ver o sol amanhecendo por entre seus dois mais obtusos píncaros. Suas gêmeas montanhas as quais alcanço o topo já ofegante, e minhas pulsações confundem-se com os tremores que vêm do lado esquerdo do solo do seu peito – ambos, aventura e aventureiro, acelerando-se à mesma adrenalina de conquista.

Assim, chio pelos grotões entre seu pescoço e queixo, correndo lábios pelo desfiladeiro do seu pescoço até a flora da sua nuca e cabelos cheirando a orquídea. Nisso, como se descobrindo a fonte secreta que se esconde na geologia do seu corpo, enfim beijo sua boca como um homem no Everest pode beijar o céu.

É quando a cordilheira acorda do seu sono de mulher e o despertar de suas placas tectônicas fazem suas montanhas, colinas e escarpas evoluírem. Num estremecer de braços e pernas e abraços provocam avalanches de volúpia sobre a cama desarrumada até que o alpinista, extasiado, busque abrigo na segurança do seu ombro, entre o travesseiro e o seu ouvido – local onde lhe direi em sussurros as palavras que somente suas montanhas poderão ecoar no espaço e tempo desse quarto.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Palavra Leste no Paraná


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Minha crônica “35 minutos”, postada aqui no dia 29 de setembro, foi publicada na edição de novembro do Jornal RelevO. O RelevO é editado pelo jornalista e também cronista paranaense Daniel Zanella, com a colaboração de escritores de vários estados.
Pra conferir a versão online, clique aqui.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cinza primavera


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Faz frio na tarde que era para ser de primavera. Pelas ruas aonde o vento suspende folhas do chão, as pessoas caminham quietas, cabisbaixas, como se neste dia o silêncio fosse regra.

A cidade parece esconder-se nas sombras que o sol fraco tenta projetar do céu nublado. Mas no fundo, nada na cidade está diferente. As pessoas é que tentam ocultar-se umas das outras e, como num jogo de pique-esconde, acabam escondendo de si mesmas (talvez faz parte de um ritual).

Assim, pelas esquinas, sob as marquises da Roque Ferreira, rente à alameda das palmeiras na Fioravante Padula, sobre a ponte da Major Pereira, nos barzinhos da José Grillo e por onde mais possam estar as pessoas nesta tarde fria que seria primavera há sinais de que o tempo se arrasta quase melancólico tanto nos pulsos de quem passa quanto no relógio da Igreja Matriz. Efeitos de um feriado que reparte a semana em dois.

Mas por instantes, a mesma cidade que enrubesce no silêncio da tarde parece evocar com seus burburinhos tímidos os personagens cuja história se preserva apenas nas lembranças. E são tantos os indivíduos evocados que durante estes mesmos instantes a cidade torna-se ligeiramente mais viva. Pessoas que têm o nome lembrado parecem estar entre todos repetindo suas prosas, seus risos e suas manias. Preenchem as ruas e a sala das casinhas e dos apartamentos nos bairros e no centro. Nisso, mais uma vez cristalizam-se na memória dos seus entes queridos que ficaram (os que neste momento lembram), cumprindo o ciclo da necessária saudade que a tarde fria aponta aos corações calados.

Porque é Dia de Finados, e ele existe não para nos lembrar que os ausentes estão mortos. Mas que um dia estiveram vivos – e continuam presentes tanto quanto a primavera que o céu nublado esconde nesta tarde fria.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Efeito fotográfico

(André Leal)
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Há duas semanas, o salão nobre do Hotel Montanhês, na parte velha da cidade, foi galeria para a exposição “Construções Humanas”, do fotógrafo André Leal.

As dezenas de pôsteres retangulares afixados nas paredes pareciam janelas falsas dando vista a uma espécie imprevisível de cotidiano. Por elas, estampas retratando modelos em focos e luminosidades distintas, com intervenções minuciosas à base de maquiagens, poses e semblantes que o próprio fotógrafo direcionou para cada peça.

Ao observador que se posicionava a dois metros de distância, as imagens canalizavam a impressão de que nelas os traços, matizes, ângulos e texturas projetavam nuances físicas pelas quais o conceito “humano” se caracteriza – as personagens, embora aparamentadas com aquarela e figurino, eram pessoas comuns interpretando suas próprias características e facetas.

O que fazia da exposição a extensão do cotidiano real (e bem mais previsível) que sempre existiu do lado de cá daquelas janelas falsas. Pois o homem ou a mulher que se vê diariamente nas calçadas, bares e igrejas não são tão diferentes dos arquetipados pela coletânea. No mundo, somos bilhões de fotografias instantâneas fazendo pose para quem possa nos olhar. E por isso, elaboramos a expressão no rosto de acordo com as conveniências que queiramos aparentar na foto – ou com as linhas de a(re)provação que formarem o desenho da face alheia.

(Nisso, contemporâneos pensadores de botequim diriam: as expressões do ser humano são biologicamente tão ilimitadas que, se fotografadas a cada segundo, não caberiam nos kilomegagigaterabytes dos cartões de memória.)

A considerar pela obra do artista, somos todos cartazes vivos interagindo entre nós, cada qual uma superfície plana aonde sentimentos e sonhos vão imprimindo no corpo e no olhar a verdadeira imagem que temos (ou a que desejamos ter). Assim, desde o sorriso mais irônico ou tímido até as silhuetas mais perversas ou doces é que nos reafirmamos à condição humana. E são marcas de que, como o título da exposição sugere, possuímos a exclusiva habilidade para nos construirmos e reconstruirmos infinitamente, visto que a nossa cara e postura podem se transformar da raiva à alegria e da tristeza a um sorriso bonito se assim quisermos.

Linkado nesta vida real, André propôs ao expectador o estranhamento por encarar a si próprio e ser levado a repetir-se a mesma pergunta “afinal, do que somos feito?” E a resposta parecia cristalizar-se bem na nossa frente: da mesma substância de que é feita a fotografia, que depois o tempo envelhece e um dia, irreversivelmente, apaga.
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Para comprar o livro com a compilação da exposição "Construções Humanas", clique aqui.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Rock off Rio

Antes que o tema vire história, babemos um pouco mais sobre o Rio e seu rock “laico” edição 2011.

Como percebe, o sentido das aspas aí de cima se refere ao axé X rock X rihanna X maroon5 etc. a que se polemizou nos trending topics da web. Se o conteúdo do Rock in Rio já não faz juz ao nome que leva, é porque talvez o evento tenha naturalmente se adaptado às demandas. Roberto Medina, o empreendedor das multidões, parece seguir o raciocínio de que hoje o produto ROCK é concebido para um público que consome cultura POP, pontanto muito mais abrangente. Pra ele, o axé é a música pop mais genuinamente brasileira que temos (o que faz todo sentido).

Agora por outro viés, esta edição do festival mais do que nunca serviu de vitrine sonora principalmente para as bandas nacionais. Era como se os palcos fossem estandes de exposições musicais, nos lembrando do peso e da qualidade que (ainda) tem o rock feito no país. Os shows da Pitty, do Capital e do Skank foram exemplos ao vivo disso.

Quanto as duas mal-digeridas (por nós) versões do Rock in Rio realizadas na Europa, parece que a ponte serviu de aprimoramento para sua organização. A estrutura e o planejamento foram inéditos por aqui, muito embora a roda gigante e a Rock Street tenham dado uma aparência mais cool ao evento, deixando-o cada vez mais com menos cara dos bons e velhos festivais de antigamente.

Mas é século vinte e um e em tempos movidos à comunicação, a nastalgia pura não gera lucros. A dimensão que o Rock in Rio tomou o conduziu mesmo ao status de marca internacional, pela qual a organização, os patrocinadores e os investidores enxergaram (enxergam) uma sacada e tanto para o marketing pesado. Segundo Medina e suas pretensões visionárias, o festival foi transmitido via internet para mais de 200 países; assim, as próximas edições, no Brasil e no exterior, poderão ser um grande momento para que o mundo, numa imagem utópica e ultra-poética, pare para festejar a música como linguagem universal e unificadora (o mesmo que a Copa para o futebol).

Nada mais coerente, já que a música, se comparada, e também aliada, às redes sociais, é uma farta rede global com milhões de seguidores (um veículo mercadológico zilionário, claro).

(Aqui se encaixa o fator Ivete e Claudia Leite: sendo artistas, buscam a estrela que a visibilidade internacional do festival poderá oferecer. E elas estão certas.)

Mas o que de fato importa é que dessa edição do Rock in Rio, duas lembranças me serão recorrentes por muito tempo: os shows do Metallica, durante o qual gostaria de ter escorregado pela tirolesa no instante que tocava One, e o do Coldplay, com seus quatro soldadinhos de chumbo transformando o palco numa imensa caixinha de música toda iluminada.

Embora eu e quase 100% da população, ainda que em tempo real, os tenhamos assistido em off, no aconchego do sofá em frente à tv da sala de estar.
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sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Construções Humanas

A partir de hoje até o dia 09 de outubro rola a exposição "Construções Humanas", do fotógrafo André Leal.
Acontece no salão do Hotel Montanhês, em Espera Feliz, aberto das 8:00h às 21:00h (entrada franca).

(clique para ampliar)

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

35 minutos

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Temos exatamente 2 minutos antes que o próximo ônibus passe, o tempo necessário para um beijo de despedida. Antes que a revolução comece, temos ainda 5 minutos para decidirmos se faremos parte dela, ou se passeremos ocultos pela história. A distância entre nosso abraço de boas-vindas é de apenas 3 minutos, o tempo que nos falta para o final dessa viagem. Para que o expediente termine, temos 6 minutos para fecharmos todas as pendências. Antes que o sono chegue, resta-nos 4 minutos de atenção, tempo hábil para lermos um último poema. Antes que o sol se ponha, 2 minutos é o que gastaremos para tirarmos uma fotografia perfeita. 6 minutos é o que reservamos para fazer uma prece. 2 minutos é o prazo que nos separa entre a última palavra e o bater da porta. E 5 minutos é o tempo que levamos para ouvir uma canção a qual nunca mais esqueceremos.

Não parace, mas são 35 minutos que nos passam diariamente sem darmos conta de que a natureza da vida não para de acontecer.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Ainda sobre o tonto do Chaves

Recebi dois emails pelos quais seus remetentes acrescentavam opiniões sobre a crônica da semana passada, “A vila”. Abaixo, reproduzo-os:

De: A.M. – “Gostei do texto, mas francamente não acho que o seriado em questão tenha tanta influência sobre a ‘identidade’ das gerações de 1980 pra cá. Aliás, nem acho tão engraçado assim aquele tipo de humor.

De: T.H. – “(...) Dizer que o programa é legalzinho, vá lá! Mas comparar Bolaños a Shakespeare é meio extravagante..
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Dando corda a este cronista que pouco sabe acerca das coisas da vida, confabulemos, pois:

A.M.,

Ainda que não deixe de concordar com você, acho raro encontrar alguém que (de preferência brasileiro nato e que já tenha aprendido a falar fluentemente), não saiba pelo menos o nome de cada um dos personagens principais do seriado. O que não significa “influência” sobre as últimas gerações, mas é o fato que há uma presença forte da aura desse programa no meio de nós. A persona de suas figuras é tão massificada que a identificação chega a transformá-las em ícones pop: a cara do Seu Madruga estampando camisetas, a lenda da bola quadrada, o gatinho que a Bruxa do 71 chama carinhosamente de “Satanás!!!”.

T.H.,

Confesso que a ideia de comparar Bolaños a Shakespeare roubei de algum lugar remotamente lido durante a adolescência, e também admito o leve desconforto que a alusão deve provocar. Mas, de verdade, acho justa e pertinente.
Penso que entre os dois autores existe uma mesma linha contígua, a mesma que mantém a atualidade de suas obras: ambas trabalham com ferramentas de ficção que abordam questões humanas presentes em qualquer tempo da civilização (vide: inveja, medo, carinho, solidariedade etc.) e utilizando o humor como linguagem. A diferença – ou a unidade – entre eles é que tiveram a genialidade para criarem obras tão massificadas em épocas tão distintas: o inglês com seu teatro sofisticado; o mexicano com seu programa rústico, mas por isso mesmo comunicativo.
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Quanto ao sucesso que o programa ainda faz no Brasil, continuo deixando para teatrólogos e sociólogos explicarem.