Palavra Leste

Blog de Farley Rocha

domingo, 17 de junho de 2012

Nuestros hermanos


 * * *
A noite do último sábado começou mais cedo. Em caravana, saímos devidamente despenteados e amarrotados de Espera Feliz, nas montanhas de Minas, rumo a Alegre, nas serras capixabas. Objetivo: assistir o show do Los Hermanos (para os fãs, o trocadilho com o nome das cidades fará todo sentido).

Nesta edição do Festival de Alegre foi relíquia presenciar a última apresentação de uma das últimas bandas dos últimos tempos que conseguem deixar tanta saudade antes mesmo de anunciarem um fim. É coletiva essa sensação de que a turnê especial de quinze anos do Los Hermanos apenas antecipa um pré-ensaio dos ensaios oficiais para um futuro retorno após o recesso – ao menos o entrosamento dos músicos assim demonstrava.

Logo que os moços se posicionaram no palco, ouviu-se ressoar pelo festival a explosão do primeiro verso “olha lá...!”, seguida por uma sequência de vinte mil vozes acompanhando a balada. No meio do público, composto por uma infinidade de eus sozinhos, dava para se sentir como se acompanhando o bloco – os metais, guitarras e baterias formavam a banda; os refletores coloridos no palco os confetes. Mas como todo carnaval tem seu fim etc., não fingimos na hora rir.

Para a banda, um turbilhão de gente cantando letras do setlist inteiro deve ser o mesmo que comemorar um gol com quase duas horas de duração. Porque ali sua música era para a vida de muitos como o público é para os músicos: uma só coisa.

Parece que aos fãs, os acordes de cada canção da banda são como pequenas peças de um fascinante brinquedo, do qual a melhor parte é quando se está montando (ouvindo). Suas músicas são como objetos, que ao acabar de ouvir dá vontade de enfiá-las no bolso e ir embora – como carregar “Samba a dois” dependurada no chaveiro ou colocar “Sentimental” no porta-retratos na estante da sala.

Mas o segredo deles, imaginamos, não está a sete chaves. A fidelidade dos fãs está no que percebem do quarteto. Por trás das barbas e camisas de gola, o público enxerga a si mesmo, como se cada integrante do grupo pudesse ser qualquer um de seus amigos, que ouvem os mesmos discos, leem os mesmos poemas e trocam as mesmas ideias. Seu maior segredo: eles é quem são parte de nós. Contam (cantam) nossas histórias, imitam nossas caretas, riem nossos risos.

Tanto que durante o show os gracejos do Camelo, as mãos sonoras do Medina, a gentefineza do Barba e a performance rastejante do Amarante deram sinais de que estavam entre amigos – tipo ‘tudo em casa’.

Até que chegou a vez do “Pierrot”, trazendo após seus rodopios o abraço dos barbados. Nesse instante, a plateia não os via mais como músicos que se vão ao final de uma apresentação, mas como hermanos que se despedem quando partem.

No palco, os confetes de luz cessaram.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Os caçadores de imagens


(Jr. Scoralich)
Os que não estão na rede talvez não percebam, mas os interligados (se não a maioria, uma boa parte) certamente têm visto a manifestação técnico/artística que cada vez mais vem tomando corpo aqui na província da serra: a habilidade subjetiva de fotografar paisagens.

Em carona na visibilidade das redes sociais, os praticantes dessa arte postam diariamente seus registros no Facebook e em outras páginas da web, retratando a cidade e suas cenas cotidianas na forma de pequenos recortes digitais. Paisagem urbana e rural, riachos e árvores solitárias, cordilheiras, nuvens e pôr-do-sol são mostrados de uma forma diferente das quais, de tão acostumados, já perdemos o jeito de reparar. E esse o grande lance dos novos fotógrafos: nos devolver exatamente aquilo que nunca nos foi tirado.

Retrato é escultura de lembranças – diriam seus adeptos.

Desse grupo que anda fazendo imagens tão conceituais de nossa terra, destacam-se alguns pelo estilo e técnica característico. André Leal (diga-se: sua exposição em 2011 talvez tenha determinado tal tendência em Espera Feliz) fotografa tanto quanto se redigisse um outdoor como se escrevesse um poema de amor e ódio. Gotardo Faria, em quadrantes casuais, disfarça poses naturalizando rostos de cenas artificiais. Fabiano Souza, biólogo e observador de pássaros, faz ciência em cores registrando a fauna e flora da região do Caparaó. Cada um, a seu modo e clique, dá forma e contorno à geografia íntima do leste.

Há outros fotógrafos – não menos sensíveis – que também registram pontos de vista inusitados da rotina aqui nas montanhas, como Abner Almeida, Rodrigo Carrara, Jr. Scoralich, Tayrine Costa, Bismarck Lacerda, Ricardo Canibal, Leonardo Tavares, Elizeu Soares e Bruno Ornelas. A cidade e suas ruas, seus becos e seus jardins, seus bichos e sua gente tomam novos significados na perspectiva desses caçadores de imagens com olhos de zoom e flashes.

Todos eles, nossos célebres e anônimos fotógrafos, talvez inspirados (ou não) pelos maiorais do assunto – Arcimboldo, Da Vinci, Duchamp, Andy Warhol, Shinoyama, Jr. Duran, Vick Muniz, Ayrton Retratista etc. – muito mais do que capturar beleza e momentos felizes, imprimem na nossa história a própria história do nosso tempo. Porque através das antigas fotografias é que entendemos o passado da cidade. Haverá uma hora em que estas imagens do presente – postadas diariamente no Facebook – serão tão velhas quanto hoje nos são aquelas em preto-e-branco.

Por isso, mesmo que eles não saibam, no futuro suas fotografias provavelmente serão o único sinal de que um dia estivemos aqui, em Espera Feliz, como pintura rupestre em alta definição.

* * *

Caçadores e suas caças:
André Leal: http://www.andrelealfotografo.com.br/
Abner Almeida: http://www.flickr.com/photos/abner_almeida/
Fabiano Souza: http://fabirdwatching.multiply.com/
Bruno Ornelas: http://www.flickr.com/photos/brunoornelas/
Leonardo Tavares: http://www.flickr.com/photos/tocandira
Gotardo Faria: https://raracena.wordpress.com/

terça-feira, 27 de março de 2012

Poema da necessidade


(Vincent Van Gogh)
Eu preciso que você me ame na intensidade das cores das flores do campo. Eu quero que você me ame na velocidade das máquinas e motores em trânsito. Preciso que você me ame sob o sol orvalhado pulverizando a chuva. Quero que você me ame nos dias nublados de tardes turvas. Preciso que você me ame xingando nomes que jamais ouvi. Quero que você me ame gesticulando carinhos que nunca fiz. Preciso que você me ame lavando o chão e a louça da pia. Quero que você me ame enquanto depila suas pernas e virilhas. Preciso que você me ame nos sonhos loucos em que galopa. Quero que você me ame nas madrugadas longas ouvindo bossa. Preciso que você me ame no silêncio que tem o olhar das gueixas. Quero que você me ame nos recados que deixa colados na geladeira. Preciso que você me ame com os olhos cheios de ódio e de sangue. Quero que você me ame com os mesmos olhos cheios de charme. Preciso que você me ame de um jeito inédito, selvagem. Quero que você me ame de um jeito bobo, assim e assado. Preciso que você me ame cheirando a álcool, suor e cigarros. Quero que você me ame no perfume que usa misturado ao seu hálito. Preciso que você me ame repetindo versos que o tempo apagou. Quero que você me ame assistindo a filmes que o vento levou. Preciso que você me ame com a nobreza que tem o coração das putas. Quero que você me ame com pensamentos perversos que amélias ocultam. Preciso que você me ame com a mesma verdade quando finge prazer. Quero que você me ame com a mesma mentira quando desprezo você.

Mas o que eu preciso de uma vez por todas e em toda parte é que você me ame. E o resto... Bem, o resto eu quero que se dane!
* * *
(Baseado no texto “Poema da necessidade”, de Carlos Drummond de Andrade.)

domingo, 18 de março de 2012

Pequena resenha sobre o poeta agricultor


* * *
Amauri Adolfo da Silva, ou apenas Amauri, poderia ser o conterrâneo mais comum que temos aqui na serra. Mas é seu ofício silencioso e sensível que o faz ser anonimamente um sujeito especial: Amauri Adolfo é poeta.

Embora maneje bem as palavras, a atividade da qual sustenta sua gente é a mesma que também sustenta todos os povos do mundo – e, se dependesse dele, mataria toda a fome que existe no planeta. É que Amauri Adolfo é agrilcultor. Profissão da qual se apresenta com orgulho e faz questão de completar dizendo “agricultor agroecológico”.

Ele e sua família, assim como seus antecedentes, trabalham com a terra numa espécie de interação com a natureza, numa dinâmica de respeito mútuo no ato de plantar e de colher. É desta forma de pensar as coisas que Amauri cultiva sua obra literária, na mesma sintonia em que lavra a terra na labuta no campo.

“Redemoinho” é seu primogênito livro. Publicado em 2005, a coletânea de poemas trouxe à tona o poeta estreante, mas já compositor de versos tão maduros quanto pitangas no pomar do seu quintal. Nele, dialogava uma poesia propositalmente simples, sugerindo que para as coisas simples da vida não carece falar complicado. Porque sua temática – e desde então sua marca – trata justamente das experiências da vida interiorana, do olhar pacato de quem assiste o mundo debruçado na janela, do barulho da água escorrendo na bica, do cheiro de café misturado à brasa do fogão a lenha, da tarde em que borboletas salpicam o pasto e gaviões agitam o horizonte amarelo. Qual Manoel de Barros, em “Redemoinho” Amauri reinventava o mundo a partir daquilo que lhe é mais essencial: a natureza.

Já seu segundo livro, “O trem”, revelou uma outra fase do agricultor de palavras – ainda poeta, mas não dos versos. Agora sua poesia era dedilhada em linhas retas, como se a mão de quem as escreveu à noite debulhava pela manhã o milho pra fazer fubá. Escreveu um romance regionalista, pelo qual narrava uma viagem lúdica de trem feita pelas personagens angelicais que criou (ou reproduziu). Neste livro, Amauri trabalhou a escrita de forma técnica e prosaica, mas sem perder de vista suas inspirações fundamentais. Na viagem que imaginou ser possível, descrevia com veracidade as paisagens que corriam enquanto o trem seguia seus trilhos ao sul. E ao longo da história, pincelou os cenários reais de Espera Feliz e da encosta da Serra do Caparaó. Nossos morros, rios, árvores e nossa gente tomaram forma na sua escrita, levando o leitor a sentir a brisa que venta das páginas enquanto são lidas. Nesta obra, o autor proseou um belo causo fazendo juz ao típico mineiro que é.

Agora, e desta vez retornando ao verso, Amauri lança seu terceiro livro, batizado tão bonitamente de “Pedaços de Poesia”. Neste volume, o poeta reúne suas pequenas anotações numa teia de palavras e metáforas como se costurasse mesmo uma colcha de retalhos. E mais uma vez surpreende apresentando um novo jeito de escrever. Definindo sua fórmula própria, que tem como base nunca se repetir, Amauri compôs poemas utilizando uma linguagem sofisticada e refinou, no mesmo pilão, um pouco da poesia marginal e panfletária, assim como da poesia concreta dos anos cinquenta e a do modernismo dos anos vinte do século passado. Trata tanto da sutileza que existe no erotismo quanto da frieza das desiguldades sociais; lida sobre os dilemas humanos com humor e ironia e explora as possibilidades de sentido que a palavra permite alcançar. Mas tudo a serviço do verso, juntando cacos do quotidiano para reconstruir tão sensivelmente a vida com seus pedaços de poesia.

Por isso, o poeta agrilcultor parece ter deixado a roça por um tempo e voltou com um jeito inédito de olhar as coisas – e de falar sobre elas. Mas as coisas que vê ainda são as mesmas, e as descreve nas estradinhas de terra por onde suas palavras sempre nos faz caminhar, poeticamente entre os vales, riachos e os passarinhos do seu universo “interior”.

sábado, 3 de março de 2012

A trajetória

                                                                                                                                para Thiago PQD

Todos no bar ouvimos o tiro pairando seu estampido sobre as mesas e garrafas. Mas antes mesmo que o ruído seco ferisse nossos tímpanos, a bala já havia me vazado o corpo, na brutal leveza que tem uma arma espelindo chumbo a queima-roupas.

A trajetória do projétil iniciou cruzando os 2,5 centímetros que separavam o bico do revólver e eu. Depois, colidiu no atrito ardido com o meu peito perfurando primeiro minha camiseta de poliester branca e, em seguida, os frágeis poros da minha pele jovem. Com força e velocidade desproporcionais ao seu tamanho, a bala ultrapassou facilmente os tecidos do meu tórax, vencendo uma a uma as camadas de epiderme, gordura, músculos e outras fibras. Assim, logo tocou com violência a placa óssea do meu peito e a atravessou como se estilhaçasse uma fina tábua de argila. Com a precisão geométrica que geralmente têm os graves incidentes, perfurou um círculo perfeito no meio do esqueleto e seguiu caminho meu corpo adentro. Rompeu micro-vazos e pequenas artérias centrais, cortou películas e membranas que cobrem meus órgãos vitais e alvejou os brônquios do meu pulmão direito – mas o coração, que também estava na rota, (por todos os deuses possíveis ao meu lado) contraiu-se no exato instante em que a bala procurava minha alma.

Enquanto o projétil me percorria o tronco, sentia como se percorresse minha história inteira. Porque trouxe no mesmo tempo em que dura um relâmpago todas as lembranças do meu passado e futuro: o sorriso eterno da minha mãe, o abraço longo do meu pai que não vi, a voz de amizade da minha irmã mais velha, os olhos negros da minha sobrinha, o beijo loiro da minha namorada, as nuvens do céu que um dia pisei e todas as pessoas que ainda não amei... Perplexo, buscava em vão nos olhos do atirador o motivo que talvez nem ele pudesse compreender.

A trajetória que a morte me encontrava durou exatamente 0,00000032 segundos entre o explodir da pólvora e o último ponto em que a bala, próximo a omoplata e a coluna vertebral, alojou-se.

Mas ainda assim fui mais rápido. Fui mais forte. Eu não queria partir daquele jeito. E, só por isso, sobrevivi ao tiro, prevaleci à morte. Na trajetória que cabe aos verdadeiros homens de bem...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Som da noite

A varanda da noite se acende.
O sentar.
O isqueiro.
O flanar.

Samambaias rodeiam pomares.
Gatos, moscas, cactos.
A rua conduz os faróis.
A vida se concentra.
Tudo é som, é palavra, é noite.
Som de sentimento.
Som das coisas todas em movimento.
Som das horas tangendo no relento.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Sobre o infinito

  existe
          no lapso
          do acaso de qualquer
                                instante
o momento
          exato
em que a pureza da alma
            (antes
                        de se eternizar
             em ato
pelo decorrer do tempo)
significa o mais breve
            intervalo
a que se pode chegar ao infinito,
            e seu rebento.

* * *
(Pico da Bandeira - Espera Feliz-MG/ES)

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

...

Cachoeiras
   
Desce a encosta
Sobre as costas e costelas
Das pedras e pedreiras
Limadas a milênios
Pelo rio antigo
Fiapo rolador
De tempo

O rio que cria o limo
A lama e o lodo sobre as pedras
Alimenta algas, girinos e cambervas
E a pesca de cascudo
Do matuto sonhador

Correnteza fria arrasta folhas
E sementes
Remansos quentes refletindo a luz
Do dia
Canção molhada entoada
Nas ribeiras e cascatas

Cachoeiras

* * *
(Cachoeira Vale a Pena - São Domingos - Espera Feliz/MG)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

O Gerson


Desde que Gerson chegou à cidade, sua figura e personalidade logo tornaram-no conhecido. Porém, apesar de hoje popular, nem todas as pessoas o conhecem pessoalmente – ou não fazem ideia de quem seja. Mas a parte com quem convive o preza como amigo e camarada.

É porque Gerson está em todas: participa do futebol de salão com os rapazes (o “Canhotinha de Ouro” da seleção de 70?), diverte as moças que passeiam no Calçadão, frequenta conversas de bar, festas de rua, churrasquinhos de sábado à tarde, choppadas eletrônicas na zona rural e noitadas com cerveja e baralho na mesa da cozinha de casa. Gerson, para esta parcela que o estima, é tido como um cara solícito e, portanto, sempre solicitado – “Porque Gerson é um cara legal”, é o que diriam.

Assim, até nas manhãs de domingo, sobre as pedras da cachoeira, Gerson com sua presença quase zen-budista sugere meditações sobre o barulho das águas do rio e a composição geológica da qual se formaram as rochas. Nas noites claras do céu de verão, Gerson também acompanha risos entre violões e vinho nos luais do Morro da Canoa.

Espirituoso e carismático, Gerson é o Johnny Cash da moçada.

Embora muitos já tenham ouvido falar, há quem julgue que o Gerson não passa de uma persona inventada. Uma entidade que além do nome e das histórias que leva não possui forma, rosto ou imagem. Mas no fundo não é nada disso. Gerson só prefere ser discreto como um famoso anônimo. Porque apesar de ser parceiro pra toda hora, por algum motivo ele se sente um forasteiro de si mesmo, um anti-heroi sem lenço nem documento – “Dom Quixote invisível nas madrugadas de Espera Feliz”, diriam seus amigos.

O certo é que Gerson está longe de um exemplo que possa ser copiado; mas também não é nenhum criminoso assaltante de velhinhas. Por isso, muitos falam com ele, porque além de aventureiro e comédia, Gerson é também um cara da paz.
* * *
Aviso: Qualquer semelhança entre a crônica e a realidade não passa de uma ilusão de óptica. “Gerson” é meramente uma alegoria literária (e barata).
* * *
(Vista do Morro da Canoa - Serra do Caparaó ao fundo)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

A cordilheira

(Foto: Jean Carllo)

O sol que já trespassa a janela projeta no contorno deitado do seu corpo sombras do relevo montanhoso que insinuam suas curvas. Aos pés da cama, vislumbro sua paisagem mórfica que faz lembrar uma serra, desde as colinas frágeis dos seus tornozelos até os picos mais íntimos despontando à altura do seu busto.

Na manhã revelando as encostas do seu dorso, sigo entre lençóis, plumas e alfazema em direção ao horizonte definido nos detalhes da sua beleza – aventureiro, desenho mentalmente um mapa de rota ao observar a geografia descoberta pela sua nudez.

Então, inicio jornada subindo paredões de seda que (deitada) formam a planta dos seus pés. Ao cravar de delicados beijos, alcanço feito alpinista a altitude dos seus primeiros flancos, escalando cada falange dos seus dedos sobre os quais admiro a cordilheira feminina de suas planícies aveludadas. Respiro fundo e continuo, migrando carinhos em cada centímetro dessa expedição corporal.

Nas vertentes das suas pernas, lisas como a face rochosa de um penhasco, escorrego o rosto e desequilibro-me. Mas seguro firme (e docemente) no platô lapidado que a natureza fez de seus joelhos. Mais uma vez respiro, e sigo acariciando passos com as mãos nas lombadas sensuais de que formam suas coxas até o quadril – em sonhos de montanha adormecida, deve sentir vertigem quando caminho cílios na pradaria sensível de suas virilhas

Ao longo, posso avistar o planalto acinturado que compõem seu colo e barriga. Enquanto mais próximo, margeio o pequeno abismo do seu umbigo tateando o fundo com o eco de um estalar de beijo (em resposta, sinto delicados terremotos junto ao arrepiar de suas extremidades).

Do ângulo onde estou agora, posso ver o sol amanhecendo por entre seus dois mais obtusos píncaros. Suas gêmeas montanhas as quais alcanço o topo já ofegante, e minhas pulsações confundem-se com os tremores que vêm do lado esquerdo do solo do seu peito – ambos, aventura e aventureiro, acelerando-se à mesma adrenalina de conquista.

Assim, chio pelos grotões entre seu pescoço e queixo, correndo lábios pelo desfiladeiro do seu pescoço até a flora da sua nuca e cabelos cheirando a orquídea. Nisso, como se descobrindo a fonte secreta que se esconde na geologia do seu corpo, enfim beijo sua boca como um homem no Everest pode beijar o céu.

É quando a cordilheira acorda do seu sono de mulher e o despertar de suas placas tectônicas fazem suas montanhas, colinas e escarpas evoluírem. Num estremecer de braços e pernas e abraços provocam avalanches de volúpia sobre a cama desarrumada até que o alpinista, extasiado, busque abrigo na segurança do seu ombro, entre o travesseiro e o seu ouvido – local onde lhe direi em sussurros as palavras que somente suas montanhas poderão ecoar no espaço e tempo desse quarto.